segunda-feira, 28 de maio de 2012

A “escola” do falsificador. Artigo de Camila Frésca no blog do Hassel Mendel


Depois de ler a crítica do colega Leonardo Martinelli sobre André Rieu – com a qual concordo plenamente, por sinal – e conferir a repercussão do texto no mundo virtual, fiquei pensando no assunto e me lembrei de alguns relatos que, em outro contexto, tratam de situações bem parecidas. São textos que descrevem concertos do século XIX e surpreendem à primeira leitura. Afinal, pode-se pensar que esta espécie de vulgarização ou banalização da música clássica seja coisa recente, fruto de uma sociedade massificada e voltada para o espetáculo. Mas não pensem que os artistas e o público do século XIX eram todos sofisticados e cultivavam a “alta” cultura de forma idealizada. Muitas das apresentações de música clássica da época mais pareciam números de circo, com intérpretes fazendo todo tipo de bizarrices e executando um repertório de gosto extremamente duvidoso.

Vejamos por exemplo duas situações narradas no livro Storia della musica nel brasile – dai tempi colonial sino ai nostri giorni, do italiano Vincenzo Cernicchiaro. O músico, que viveu por muitos anos no Rio de Janeiro, atuou como violinista e professor e publicou sua história da música em Milão em 1926. Trata-se de um registro importantíssimo das atividades musicais do país, principalmente do século XIX. Como era violinista, Cernicchiaro dedicou atenção especial a essa categoria. No capítulo “Dos violinistas nacionais e estrangeiros (1844-1925)” ele afirma que, em 1845, um tal de Agostino Robbio (provavelmente italiano) deu alguns concertos no Rio de Janeiro. Num deles, o repertório era composto por obras como “Casta diva” de Norma; um “tema com variações para rabeca sobre motivos da ópera Sonnambula”; e “variações burlescas sobre motivos das valsas de Strauss”. Já sobre outro dos concertos de Robbio, um crítico da época escreveu: “As imitações do cantar dos pássaros, do ornejar do jumento e outras que ele faz com a perfeição conhecida pelas que tem ouvido, acrescentou a do chiar dos carros de transportar madeira etc., com espantosa semelhança”.

Outro exemplo é Antonio Saenz, violinista alemão que chegou ao Rio igualmente em 1845. Segundo Cernicchiaro, em seu programa de concerto, ao lado de peças triviais, estavam variações de Paganini tocadas numa corda, com a particularidade de que “o beneficiado tocará algumas delas com uma bengalinha (?!) em vez de arco; e, por último, as grandes variações ou miscelânea do concertista, executadas em 14 instrumentos...”. Após essa informação inusitada, uma nota à margem do programa esclarecia: “Bem convencido está o beneficiado de que é árdua a empresa da execução dos indicados instrumentos, posto que a variedade das embocaduras nos de vento, e os diferentes diapasões de cordas, apresentarão dificuldades gravíssimas, tais que o beneficiado se persuade que, pelo menos na América, é ele o primeiro que tem podido vencê-las; todavia conta com a indulgência generosa de um público tão inteligente e benévolo como o fluminense”. Ou seja, a promessa era de um espetáculo bizarro e de uma demonstração de virtuosidade em vários instrumentos. Porém, o músico já pedia de antemão a “indulgência generosa” do público, caso não desse conta de tanta estripulia...


Mas o registro que mais se aproxima do que faz André Rieu hoje em dia encontrei em outro livro de referência, 150 anos de música no Brasil, de Luiz Heitor Corrêa de Azevedo. Tratando do mesmo período, ele conta: “André Gravenstein, holandês que chegou ao Rio de Janeiro em 1859, fundou e teve grande êxito com os chamados ‘Concertos à Musard’, em que imitava os processos excêntricos que haviam feito a fortuna de Philippe Musard no Théâtre des varietés, de Paris (...) Com a sua orquestra de doze trombones cantantes e 14 cornetins, transformando em quadrilhas e galopes alucinantes os motivos de ópera mais em voga, ele criava, na sala de baile, uma atmosfera de delírio (...) Ao som de uma orquestra de cem executantes, a jeunesse dorée fluminense dançava a célebre quadrilha Chicocandou e ouvia os números de concerto enxertados no programa, inclusive solos de violino executados pelo próprio Gravenstein”. Está aí a ‘escola’ de Rieu” – ironicamente, os personagens de ontem e de hoje são similares até no nome...

Com a massificação dos produtos culturais e os eficientíssimos meios de comunicação que possuímos hoje, algumas coisas tomam dimensões verdadeiramente assombrosas, mas isso não significa que passaram a existir somente agora. Espetáculos popularescos e criados para ser em primeiro lugar um negócio lucrativo existem há muito. E outra questão que me ocorreu foi: será que o violino seria especialmente propício a este tipo de arte marqueteira e malabarística? Afinal, deixando de lado a música (que ainda assim não pode ser comparada à de um Beethoven ou Bach) e pensando somente nas lendas que envolvem Paganini, logo vem à mente as histórias de que ele chegava aos concertos coberto por um manto negro numa carruagem puxada por cavalos negros; que seu som e suas acrobacias ao violino eram tão extraordinários que as senhoras chegavam a desmaiar durante os concertos; e que, em algumas apresentações, misteriosamente, as cordas de seu violino estouravam uma a uma, restando-lhe apenas a Sol: mas ele continuava tocando, gloriosamente, até o final da música, para o espanto da audiência. A se pensar...


Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010)



Fonte: http://www.concerto.com.br

sábado, 26 de maio de 2012

Cancelamentos

Anna Netrebko
Anna Netrebko
 A temporada de festivais mal começou no Hemisfério Norte e notícias de cancelamento já agitam o mercado. Primeiro foi Anna Netrebko, que após cancelar récitas de Don Giovanni, em Berlim, e de “I Capuleti ei Montecchi”, de Bellini, em Munique, não vai mais se apresentar no Whitsun Festival de Salzburg. Agora, o tenor Jonas Kaufmann, depois de cancelar algumas récitas de “A Valquíria” no azarado “Anel” do Metropolitan de Nova York, acaba de abandonar a programação do Festival de Lucerna, onde faria recitais. No caso dele, a imprensa suíça não perdoou. Se estava com problemas na voz, por que cantou, no sábado passado, antes da final da Liga dos Campões, em Munique? O cantor correu à imprensa para esclarecer que, na cerimônia, apenas dublou uma gravação feita tempos antes. “Se tivesse que cantar ao vivo, também teria cancelado”, disse, acrescentando que não recebeu um centavo pela performance.

Jonas Kaufmann
Jonas Kaufmann
Kaufmann tem um histórico grande de cancelamentos – e por conta disso a todo instante surgem boatos sobre sérios problemas em sua voz. O fantasma do cantor que, por excesso de compromissos, destrói a voz cedo demais nunca deixa de rondar o mercado da ópera. Até porque fez vítimas recentemente – que fim levou José Cura? Isso para não falar de Rolando Villazón, que passou de novo Plácido Domingo a cantor de segundo time em questão de meses, lutando com um problema nas cordas vocais – sua recente gravação do Werther, de Massenet, em Londres, símbolo de seu “retorno” revela um vibrato insistente e uma afinação precária. Talvez por isso, cancelamentos ocasionais sejam uma medida mais sensata do que cantar demais, mesmo quando não se sente à vontade. Para o público, é frustrante mas, é como disse o barítono Renato Bruson, em recente passagem por São Paulo. “Os artistas desaprenderam uma lição importantíssima: a coragem de dizer não. Nos últimos anos assisti a bons cantores, vi dois ou três barítonos que me empolgaram. Onde estão hoje? Com problemas vocais. Canta-se demais. Eu me lembro, nos anos 80, de cantar Otello com Plácido Domingo em Buenos Aires. Ele cantava à noite, pegava um avião, ia para a Europa cantar. Voltava dois dias depois, fazíamos mais uma récita de Otello. Então, pegava de novo seu avião e ia para os Estados Unidos.” O problema, completou, é que nem todo mundo tem a voz – e a inteligência – de Domingo.


Fonte: estadao.com.br

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Jessye Norman se apresenta amanhã na BBC Radio 3

A lendária soprano americana, Jessye Norman, se apresentará ao vivo amanhã no “In Tune” da BBC Radio 3. Vencedora de inúmeros prêmios, incluindo o “Grammy Lifetime Achievement Award” de música clássica e inúmeras célebres performances, Jessye Norman é uma das grandes sopranos wagnerianas da atualidade.

Além disso, ainda teremos o virtuoso trompetista sueco Hakan Hardenberger, descrito como “o mais limpo e sutil trompetista da Terra” tocando ao vivo nos estúdios da BBC, enquanto se prepara para comemorar seu 50º aniversário no Cadogan Hall, em Londres.

O programa Irá ao ar amanhã às 16:30 (12:30, horário de Brasília), e terá duração de 2 horas. Para ouvir, basta acessar o site da BBC Radio 3 ou clicar aqui.

Atualização (10/05/2012 - 20:40):
O programa foi ao ar hoje, mas você ainda pode assistir dentro dos próximos 7 dias clicando aqui.


Fonte: http://www.bbc.co.uk/radio3/

segunda-feira, 7 de maio de 2012

RioHarpFestival movimenta o Rio de Janeiro até final do mês

Kaori Otake
O projeto Música no Museu, que tradicionalmente leva uma programação mensal ao Rio de Janeiro e outras cidades, desta vez promove o RioHarpFestival, que chega à sétima edição. Harpistas de 25 países tocam em apresentações solo ou acompanhados por grupos. O festival, que já é referência internacional no circuito mundial da harpa, vai até o final de maio em apresentações diárias em diversos espaços culturais da capital carioca, em um total de mais de 80 apresentações.

Grandes nomes do instrumento passam pelos palcos cariocas, como a japonesa Kaori Otake, o português Mário Falcão, a italiana Marcella Carboni e a alemã Silke Aichhorn, além dos brasileiros Gustavo Beaklini, Vanja Ferreira e Suélen Sampaio. O festival permite que o público acompanhe uma grande variedade de repertórios para harpa. Desde compositores eruditos, como Tchaikovsky, Liszt e Bach, passando por canções populares de Vinicius de Moraes, Cartola e Gardel, até a improvável intersecção da harpa com o rock, como no caso do concerto do dia 18, no Centro Cultural da Justiça Federal, de Celso Lazarini (flauta) e Jonathan Faganello (harpa), que apresentam músicas do Pink Floyd e Deep Purple, entre outras bandas.


Fonte: http://www.rioharpfestival.com/http://www.concerto.com.br

sábado, 5 de maio de 2012

Fundação Osesp anuncia programação do 43º Festival de Inverno de Campos do Jordão

Marcelo Lopes, Marcelo Araújo e Artur Nestrovski
Marcelo Lopes, Marcelo Araújo e Artur Nestrovski
Em coletiva de imprensa realizada quarta-feira (2/5) na Sala São Paulo, o secretário de Cultura Marcelo Araujo, o diretor executivo Marcelo Lopes e o diretor artístico Arthur Nestrovski anunciaram as linhas gerais e a programação do 43º Festival de Inverno de Campos do Jordão. A abertura será dia 30 de junho no Auditório Claudio Santoro, com um concerto da Osesp, Coro da Osesp, Coral Paulistano e participação de solistas estrangeiros, sob direção do maestro Thomas Dausgaard, em apresentação da Missa Solemnis de Beethoven.

A realização do Festival de Campos do Jordão passa agora a ser feita pela Fundação Osesp, que substitui a Santa Marcelina Cultura responsável pelas últimas duas edições. Apesar dessa decisão ter sido tomada há apenas poucas semanas – e a despeito da complexidade de planejamento e produção que um evento dessa natureza demanda – é bem ambiciosa e programação apresentada: serão cerca de 60 concertos com artistas como Marin Alsop, Nelson Freire, Sarah Chang, Antonio Meneses, Giancarlo Guerrero, Johannes Moser, Sir Richard Armstrong, Fábio Zanon, Nelson Goerner, Isaac Karabtchevsky, Hagai Shaham, Quarteto Vogler, Nathan Gunn e outros.

A novidade fica por conta da mudança na área pedagógica, que passa a ter como foco a atividade orquestral – a sinfônica formada por alunos fará três programas distintos ao longo do festival. “Montamos a programação em torno de três eixos principais”, explicou na quarta o diretor artístico do festival, Arthur Nestrovski. “O primeiro diz respeito à orquestra dos bolsistas; o segundo, aos professores que também farão concertos; e, por fim, artistas convidados, que vão apenas se apresentar, com destaque para os principais conjuntos sinfônicos e de câmara brasileiros.”

A orquestra dos bolsistas será comandada por três maestros. Na primeira semana, rege o grupo Sir Richard Armstrong, em programa que tem obras de Wagner, Mahler e Dvorak; na segunda, será a vez de Giancarlo Guerrero, com obras de Dvorak, Chapela e Bernstein; e, no terceiro, assume o grupo Marin Alsop, com peças de Mozart, Camargo Guarnieri e Bartok. Os concertos serão realizados em Campos do Jordão e na Sala São Paulo; a itinerância pelo Estado, instituída no ano passado, foi abolida. “Para nós parece mais interessante, do ponto de vista de experiência artística, que os músicos se apresentem em um palco como a Sala São Paulo, com maestros de peso.”

Os três maestros – assim como o pianista Nelson Freire e o violoncelista Johannes Moser, que serão os solistas dos concertos da orquestra do festival – também participam da temporada da Osesp; da mesma forma, muitos dos professores vêm da orquestra. “Nesse primeiro ano, até por uma questão de tempo, acabamos nos valendo de quem já estaria aqui por conta da temporada da Osesp”, diz Nestrovski. A Osesp fará três programas em Campos, entre eles a abertura (Missa Solene, de Beethoven, regida por Thomas Dausgaard) e o encerramento (programa com Ives, Britten, Adams e Shostakovich, com Carlos Kalmar e o barítono americano Nathan Gunn). Músicos como o violoncelista Antonio Meneses, os pianistas Ewa Kupiec, Nelson Goerner e José Feghali, o flautista Jacques Zoon e o trompetista Ole Edward Antonsen estão entre os artistas convidados, que farão apresentações e darão aulas e masterclasses. A violinista Sarah Chang não dará aulas, mas fará concerto com a Filarmônica Jovem da Colômbia. Entre os grupos brasileiros, estão a Sinfônica Municipal de São Paulo, a Experimental de Repertório, a Sinfônica Brasileira, a Filarmônica de Minas Gerais e a Petrobrás Sinfônica, que vai apresentar a nova ópera de João Guilherme Ripper, Piedade. Ripper, como Chapela e André Mehmari darão masterclasses e terão encontros com o público antes dos concertos. Na lista de grupos de fora, o destaque é o Quarteto Vogler, da Alemanha.

Esculturas ao lado do Auditório Claudio Santoro, em Campos do Jordão
Esculturas ao lado do Auditório Claudio Santoro, em Campos do Jordão

O Festival de Campos do Jordão também firmou convênios internacionais com quatro destacadas academias de música, que participarão enviando alunos e professores: Royal Academy of Music de Londres (quinteto de metais), Conservatório de Amsterdã (quarteto de cordas e quinteto de sopros), Conservatório Real de Haia (quarteto de cordas) e Peabody Institute dos Estados Unidos (quarteto de cordas). Esses alunos se juntarão aos brasileiros, somando 115 bolsistas – as inscrições para estudantes brasileiros permanecem abertas até 15 de maio. Conforme Marcelo Lopes, “a Fundação Osesp, em sua estreia na organização do Festival, seguirá a mesma linha pedagógica aplicada na Academia da Osesp, com uma orientação intensiva voltada à prática orquestral qualificada”.

A Fundação Osesp também anunciou que os bolsistas não serão mais alojados nas antigas dependências, sempre muito criticadas em razão de suas precariedades. Agora, os bolsistas serão hospedados em uma pousada localizada a pequena distância do auditório. As aulas e cursos passarão a ser ministrados no Castelo Chinês, “um espaço agradável e adaptado às necessidades do Festival”, conforme as informações recebidas.

O orçamento para o Festival deste ano é de R$ 6 milhões, sendo R$ 2,5 milhões financiados pelo governo do Estado e R$ 3,5 milhões pelo Bradesco, patrocinador do evento desde 2005.

A QUESTÃO DA DIREÇÃO

Arthur Nestrovski, diretor artística da Osesp, e Marcelo Lopes, diretor executivo, assumem os mesmos postos em Campos do Jordão. Questionado sobre esta centralização de poder de decisão, o secretário de Cultura Marcelo Araújo afirmou que a saída foi necessária neste primeiro momento. “Mas isso não significa que seja a única possibilidade. Já no ano que vem o festival pode ganhar direção própria dentro da estrutura da Fundação Osesp.” Para Lopes, sempre haverá ligação entre o festival e a orquestra. “Mas não há tentativa de agregar poder de maneira vertical.”


Fonte: http://www.estadao.com.br; http://www.concerto.com.br; http://www.festivalcamposdojordao.org.br/

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Così fan tutte na UFRJ

O diretor André Heller-Lopes em ensaio com
solistas e o pianista Gustavo Ballesteros.
Depois do sucesso do ano passado, o projeto Ópera na UFRJ prepara Così fan tutte (Assim todas fazem, em tradução literal), de Wolfgang Amadeus Mozart, com estreia marcada para 05 de julho, no Salão Leopoldo Miguez. A direção musical e regência são de André Cardoso e a direção cênica é de André Heller-Lopes, ambos professores da Escola de Música (EM). Com 130 integrantes, entre cantores, instrumentistas, artistas plásticos, atores, coreógrafos, iluminadores e produtores, a montagem reunirá, mais uma vez, estudantes, técnico-administrativos e docentes de três unidades. Figurino, cenário e projeção cênica estão a cargo da Belas Artes (EBA) e os assistentes de direção são alunos da Comunicação (ECO). A obra será apresentada em duas versões - clássica e contemporânea -, cada uma com um elenco de solistas. Cantada em italiano, terá legendas em português.

Così fan tutte é a terceira e última ópera do compositor cujo libreto foi escrito por Lorenzo da Ponte. As outras duas haviam sido “As Bodas de Fígaro” e “Don Giovanni”. É considerada por muitos como aquela que melhor reúne um profundo sentido de comédia com a magistral criação musical de Mozart no desenho e definição das contradições amorosas da alma humana. A escolha do título se deve ao fato da obra se adequar às necessidades da Escola, com vários solistas e podendo assim dar oportunidade aos alunos, salienta André Cardoso, lembrando também que um coro menor e poucas mudanças de cenário facilitam a logística da montagem e da produção como um todo, o que é importante em um projeto itinerante.

Além das quatro récitas na EM, a apresentação de Così fará parte da programação do Festival de Inverno de Petrópolis, também em julho. Em Campos dos Goytacazes, integrará as comemorações dos 15 anos do Teatro Trianon. A temporada inclui ainda Niterói e outras cidades. Em 2011, Don Quixote nas Bodas de Comacho reuniu um público mais de três mil pessoas. “Estamos trabalhando para bater esse recorde”, avisa o coordenador de produção, José Mauro, da EM.


Fonte: http://www.musica.ufrj.br

domingo, 29 de abril de 2012

Violinos de colecionador ajudam a contar histórias do Holocausto

Após anúncio em rádio, israelense conseguiu reunir 36 instrumentos.

Filho de sobreviventes, ele diz que violinos são como lápides para mortos.


Violino com cinco estrelas de Davi é exibido na Universidade da Carolina do Norte, nos EUA (Foto: Chuck Burton/AP)
Violino com cinco estrelas de Davi é exibido na
Universidade da Carolina do Norte, nos EUA
(Foto: Chuck Burton/AP)
Todos os dias, eles tocavam para os companheiros nos campos de concentração nazistas espalhados pela Europa da época da Segunda Guerra Mundial. Muitos dos músicos, geralmente amadores, que compunham as orquestras dos campos foram salvos por sua habilidade - e pelos seus instrumentos, que guardam até hoje a história do massacre de 6 milhões de judeus pelo regime de Adolf Hitler na Alemanha.

Um pouco dessa história está nas mãos de um israelense chamado Amnon Weinstein. Fabricante de violinos, Amnon tem uma loja-ateliê em Tel Aviv onde guarda 36 violinos de músicos judeus que viveram na Alemanha na época do genocídio nazista, inclusive de sua família.

Em entrevista ao G1 por telefone dos Estados Unidos, onde expôs em abril os violinos pela primeira vez no continente americano - na Universidade da Carolina do Norte, em Charlotte -, o simpático senhor de 73 anos contou como começou o projeto "Violinos da Esperança" e falou sobre a importância de manter a memória do que aconteceu. "Eles [os violinos] são como lápides para todos os músicos mortos no Holocausto, centenas deles, milhares, minha família."

Como tudo começou?
Amnon
- O começo é muito prosaico, eu sempre digo. Eu tinha um aluno que veio do leste alemão trabalhar como fabricante de arcos em Israel, estamos falando de 15 anos atrás, e no momento em que ele apendeu sobre o Holocausto, ele tentou me convencer a dar uma palestra sobre violinos que vieram para Israel em 1936 [vou explicar depois o porquê, tenho uma coleção deles], na associação de produtores de arcos e violinos da Alemanha. Levou dois anos para eu dizer sim e depois foi como uma bola de neve. Desse tempo em diante, eu tenho trabalhado no projeto 'Violinos da Esperança'.


Amnon segura violino da coleção (Foto: Ken Lambla)
Amnon segura violino da coleção (Foto: Ken Lambla)

E por que 1936? É muito especial e importante. Em 1936, Bronisław Huberman, um grande violinista judeu, e o maestro italiano Arturo Toscanini, na época número um do mundo, criaram a orquestra filarmônica de Israel atual. E Huberman trouxe os melhores músicos da Europa para Israel, judeus. Porque ele viveu em Berlim e entendeu o que os alemães tinham planejado fazer com os judeus mais para frente. Então ele convenceu os músicos a vir para Israel formar essa orquestra e salvou cem músicos e as pessoas ao redor - o que dava cerca de 300 pessoas salvas dos nazistas.

A maioria desses músicos que vieram de Alemanha, França, Suíça ou Polônia tocava em instrumentos de fabricação alemã. Para eles, naquela época não havia problema em usar um violino feito na Alemanha e ser um músico judeu. E eles sabiam que em Israel não havia nada, nenhum fazedor de violino, não se podia nem comprar cordas. Então cada um trouxe consigo ao menos três violinos, violas e violoncelos, pois em caso de quebrar eles tinham que mandar para a Europa de barco para arrumar e demorava muito tempo.

Agora pulemos para 1945, após a guerra. Em Israel, todos sabem sobre as atrocidades que os alemães fizeram na Europa. E pode-se dizer que em Israel, nessa época, a maioria das pessoas tinha família entre os 6 milhões de pessoas [mortas no Holocausto]. Então houve um boicote completo de qualquer produto de origem germânica, de vacas até qualquer produto de casa, incluindo, claro, violinos. Os músicos chegavam e diziam 'não vamos mais tocar nesse instrumento'. Alguns quebraram os violinos e outros chegaram pro meu pai e disseram 'se você não comprar o violino, eu vou queimá-lo'. Então meu pai...

Seu pai também fazia violinos?
Amnon
- Sim, claro! Então sem mencionar nada - ou sentindo algo - meu pai adquiriu uma enorme coleção de instrumentos de origem alemã. Portanto aquele fabricante de arcos de que lhe falei me convenceu a fazer uma palestra sobre isso em Dresden (Alemanha). Depois, num programa de rádio em Israel, eu perguntei ao público quem tinha violinos relacionados ao Holocausto e hoje tenho uma coleção de 36 violinos assim divididos em quatro categorias: a primeira é de violinos que estiveram no Holocausto e de que sabemos o nome da pessoa que tocava, e às vezes até temos fotos dos donos; a segunda categoria é de instrumentos que estiveram no Holocausto, mas de que não sabemos nada de seus donos. Porque, para essas pessoas, os violinos sobreviveram à vida, à guerra, os alemães precisavam de todos esses músicos para tocar e enganar os judeus para ir para a câmara de gás.

Os violinos da coleção de Amnon (Foto: Ziv Shenhav)
Os violinos da coleção de Amnon (Foto: Ziv Shenhav)

Após a guerra, nenhum deles tocou violino nunca mais na vida, só algumas mulheres que não viram tantas das atrocidades e mortes que os homens viram durante a guerra. Muitos deles escaparam da Europa e foram para os EUA, muitos não quiseram vir para Israel, que estava em guerra, e acredito que 99% guardaram os violinos e nunca mais falaram sobre o assunto. É um fato que muitos sobreviventes não falavam uma palavra sobre o Holocausto. Era como um tabu para eles, um assunto proibido.

A terceira categoria da coleção são violinos de membros da orquestra, tenho muitos no ateliê, e só um deles está pronto para ser tocado. A quarta categoria é de violinos usados por músicos populares, que tocam em casamentos e bar mitzvahs [cerimônia judaica que insere o jovem na comunidade adulta], e muitos deles tocavam em violinos com a Estrela de Davi. Os alemães confiscaram milhares de instrumentos pertencentes a judeus e é impossível rastrear quem são os donos por causa da falta de documentação.

Todo esse trabalho feito com os violinos é porque estamos deixando de volta em condições de serem tocados quase todos os instrumentos. Eles são como lápides para todos os músicos mortos no Holocausto, centena deles, milhares, minha família. Minha irmã uma vez fez a conta, e quase 400 pessoas da nossa família morreram no Holocausto.

Só da sua família?
Amnon
- Sim! As famílias judias daquela época eram muito grandes. Só o meu pai tinha 11 irmãos, imagina quanta gente. Ele e um outro irmão sobreviveram, mais ninguém.

Quando seu pai chegou a Israel?
Amnon
- Em 1938. Meu pai decidiu emigrar para Israel, ele era um músico profissional e também um fabricante de violinos.

O senhor aprendeu a profissão com ele?
Amnon
- Sim, primeiro com ele, depois fui para a Itália e a França, esse é meu currículo como fabricante de violinos. Ganhei prêmios em competições, e depois todo meu tempo é dedicado para o 'Violinos da Esperança'.


Amnon trabalha em seu ateliê (Foto: Ken Lambla)
Amnon trabalha em seu ateliê (Foto: Ken Lambla)

Como o primeiro violino chegou ao senhor?
Amnon - Como lhe falei, foi por meio de um programa de rádio, em Israel. Aí chegou um, dois, fizemos concertos em Istambul e depois fizemos um grande concerto em Paris, e na época tínhamos só quatro violinos. Hoje estamos falando de 36 violinos - 18 aqui em Charlotte [na exposição]. Você consegue imaginar isso? Todos em condições de tocar, todos para concertos. Há alguns instrumentos que nunca serão restaurados e ficarão como evidência para as próximas gerações.

Por exemplo, eu recebi de um americano, fabricante de arcos, Joshua Henry, ele me escreveu um e-mail dizendo que comprou um violino de um comerciante judeu e quando abriu o violino ele achou o escrito 'Heil Hitler' [saudação nazista], 1936 e uma suástica. Com uma caneta, escrito de um jeito muito agressivo e feio. Nossa opinião é que, não temos provas porque o dono provavelmente morreu, mas no ano 1936 havia muitos judeus morando na Alemanha e o dono, que era um tocador amador, porque não era um violino grande, era um violino normal, alguma coisa aconteceu e ele foi num ateliê para arumar e essa pessoa sem permissão, sem falar para ninguém, abriu e escreveu 'Heil Hitler' dentro e não havia como fazer isso sem abrir o violino - e isso eu posso confirmar. E então ele devolveu o violino para o homem judeu, que tocou com o violino de 'Heil Hitler' por toda a sua vida. Os alemães não cometeram apenas atrocidades contra pessoas, mas também contra instrumentos.

Como foi receber o primeiro violino vindo com uma história do Holocausto?
Amnon
- Em primeiro lugar, [...] um violino é um violino. Mas um violino com um enorme passado histórico é completamente diferente. E cada violino tem uma história diferente. O primeiro que me chegou foi muito muito especial pois veio do ateliê do homem que foi o professor do meu pai. Então era um violino judaico, com duas estrelas de Davi, uma inscrição em iídiche e veio do professor de meu pai. O que pode ser melhor que isso? Nada.

Sobre as estrelas de Davi nos violinos: todos tinham a inscrição? Era uma tradição?
Amnon
- Não, não, não, não cometa esse erro. Os tocadores judeus tocavam em qualquer instrumento. Nessa época, estamos falando de 1900, metade de 1800, era muito comum nas casas judaicas ter violinos, para tocar nas nossas festividades. Eles eram mais comuns no leste europeu - no oeste não se encontra esses violinos - e em geral eram muito baratos. A decoração era feita pelos judeus e cristãos faziam cruzes também. Neste caso, todos esses instrumentos, na nossa tradição, eram pregados na parede, pois para os judeus ortodoxos era proibido pregar qualquer pintura ou ter escultura nas casas, então eles tinham violinos.

Quanto tempo o senhor leva para restaurar um violino assim? Como é o processo?
Amnon
- Esses violinos da exposição [nos EUA] levaram um ano e meio. Cada um leva entre três e seis meses. Depende das condições que eles estão. Os violinos que vieram do Holocausto estão em péssimas condições.

O senhor acredita que todo violino fica com a marca de seu dono? Como isso acontece?
Amnon
- Sim, sim. Todo violino é tocado pelo tipo de som que o músico gosta e colocado dentro do violino. E quando você é um violinista profissional você pode ouvir isso, quando você toca nele hoje. E é muito sabido, por exemplo se pegarmos um instrumento pertencente a um grande nome e se tocar corretamente você pode ouvir o jeito que a pessoa tocava nele. É algo muito especial, mas é preciso ser um violinista educado para isso. Mas é possível sentir.

O senhor também faz registros escritos, documenta as histórias desses violinos?
Amnon
- Eu tomo minhas notas e registro qualquer informação que conseguir, a restauração que fiz. E agora, um professor da orquestra daqui vai escrever um livro sobre os violinos, até os que não estão na exposição. [...] Na minha coleção eu tenho 20 outros violinos que não estão contabilizados, pois não estão em condições de serem tocados e vieram da filarmônica de Israel.

Quantos violinos têm informações sobre os donos?
Amnon
- Tem um que temos todas as informações sobre o dono e uma foto dele tocando. Aí outro é o que era do meu pai - não estava no Holocausto, mas salvou sua vida, podemos dizer - há outro violino, vindo da Romênia, cujo dono veio para Israel, e ele tocava para os vizinhos em festividades e toda comida que ele conseguia ele levava para os guetos, então no fim do dia cerca de 18 pessoas sobreviveram com essa comida extra.


Fonte: http://g1.globo.com